Nem esquerda, nem direita

Ontem um amigo de infância fez um comentário a meu respeito no Facebook.  Ele disse que eu sou um direitista.  No contexto da conversa isso quis dizer que eu sou incapaz de ver ou aceitar as boas coisas vindas do governo atual, conduzido pelo PT.

Respondi dizendo que tal comentário fora uma boa idéia para um post neste blog, e aqui estão minhas considerações.

Não sou uma pessoa de esquerda ou de direita.  Eu sou, como todos deveriam ser, uma pessoa que vai escolher o melhor caminho.

O problema em escolher o melhor caminho é que tratando-se de política, isso fica muito complicado em razão das diferentes opiniões de setores sociais e econômicos, além das convicções pessoais de cada um.

Então, quem não quer morrer louco, acaba optando por um conjunto de pessoas (partido) que têm uma mesma visão e adotam uma conduta uniforme.  Assim acontece com a maioria das pessoas engajadas politicamente, a meu ver.

Eu não sou politicamente engajado.  Milhões de pessoas são, e outros milhões de pessoas não são.  Para mim, o engajamento é uma opção.  Preferi não me engajar nessa luta porque minhas crenças e convicções sobre o que é a humanidade são muito diferentes das das demais pessoas.  Para me filiar a um partido político e fazer papel de entregador de panfletos, fiscal de nada, ou ativista social sufocado pela multidão, prefiro não.  Obrigado.

Mas reconheço o esforço sincero e por vezes altruísta de muitas pessoas, como acredito ser o caso de meu amigo de infância.  Porém, acho que por vezes falta alguma compreensão de conjuntura para que esses engajamentos produzam efeito prático que tenha alcance maior do que o ego.

Sustento minha opinião baseado na observação das ações adotadas pela quase totalidade das pessoas engajadas, com as quais já pude trocar mais que meia dúzia de idéias.  Pouquíssimas priorizam o bom senso, escolhendo desenvolver um assunto sempre a partir de suas convicções partidárias e conduzindo a conversa com o claro objetivo de fazer valerem suas opiniões e demonstrarem que o caminho deles é o melhor.

Isso para mim não é política.  É religião.  Não adianta discutir nem religião, nem política.  Futebol só serve para tirar desviar a atenção do povo.  Futebol para homens, novela para mulheres.

Eu vejo futebol, me divirto vendo meus amigos escarnecerem uns dos outros, vejo novela, me divirto vendo minha atual heroína, a “Suelen”, e me divirto até me pegando ansioso para saber o que vai acontecer com a madrasta má.  Mas eu não me iludo.  Sei que se eu cair na roda viva de acompanhar futebol e novela, será em detrimento de outras atividades que considero mais importantes.

Infelizmente, nem todos têm essa visão clara de seu posicionamento no tabuleiro político-social.  É uma visão por vezes fria, concordo, mas não é no calor das emoções que costumamos fazer as maiores besteiras?

Não estou defendendo a idéia de que devamos viver uma vida sem emoções, mas defendo a idéia de que nossas vidas não podem ser reflexo exclusivo de nossas emoções.

É essa a conjuntura a que me referi parágrafos atrás.  Se você estava prestando realmente atenção, deverá ter pensado em algum momento: não tem nada a ver, ele viajou na maionese.

Lamento desapontá-lo (lembre-se que o domínio na língua portuguesa é masculino.  Nada tem a ver com uma preferência minha em alcançar apenas uma audiência masculina) mas vou explicar sobre a conjuntura.

Não podemos desconsiderar o fato de que como indivíduos nos inserimos em uma sociedade.  Como nos inserimos, como fazemos valer nossas vontades, como alteramos os nossos núcleos sociais através de nossa participação, como nos comunicamos etc, é que forma o conjunto de nossa existência.

Mas nossa existência precisa ser harmoniosa, caso contrário, existiremos por pouco tempo.  Ninguém que eu conheço tem como objetivo de vida, deixar de viver.  É até um paradoxo cômico.

Para sermos harmoniosos, devemos pensar um pouco sobre as consequências de nossas atitudes, porque precisamos que os outros nos aceitem, então naturalmente procuraremos agir conforme o grupo em que estamos mais inseridos, ou que queremos nos inserir.

Ninguém vai à uma balada gay, para se divertir, com a intenção de fazer amigos gays, e diz “Vim aqui para me divertir apenas, mas eu acho que ser gay é uma doença, vocês são todos uns pobres coitados que precisam ser curados, e tenho dito”.  Essa pessoa seria no mínimo, rejeitada.

E nossa sociedade está estruturada como, politicamente?  Em partidos.  Grupos compostos por pessoas que partilham de um mesmo pensamento, opinião, ou intenção.  É como a balada gay.  Tente chegar a alguém que participa de um partido e dizer que a doutrina básica deles poderia sofrer alguns ajustes, porque está, historicamente, equivocada.

A pessoa rejeitará imediatamente sua opinião herética, sem bases, e radical.  Ora, ora, quem é radical mesmo?

Por essa razão é que eu digo que as pessoas precisam conhecer a conjuntura em que estão inseridas antes de se engajarem politcamente, sob o risco de agirem como macacos treinados para repetir um mesmo discurso.

Nem é tão importante assim o discurso, porque ações valem mais do que palavras.

Não consigo deixar de salientar minha inconformação com a necessidade tamanha que as pessoas têm de fazer suas frustrações serem ofuscadas ao jogarem o foco da vida em outras pessoas.  Por exemplo, para alguns, tudo o que acontece hoje no Brasil é culpa de alguns governantes recentes.  Para outros, tudo o que acontece de bom no mundo é por que Deus quis.

É simplesmente irracional.  A miséria total na África é porque Deus quis, então?  Então Deus é igualmente mau?  Que Deus?  E por que ninguém se lembra que Getúlio Vargas foi, na verdade, um ditador, que tinha como dispositivo um “Departamento de Imprensa e Propaganda”, mesmo dispositivo utilizado por tantos outros ditadores, como Hitler e Mussolini?

Eu digo o porquê: porque as pessoas não querem pensar por sí próprias.  É mais confortável se enquadrar em uma multidão maior, e ser acolhido.  É mais recompensador quando se repete uma frase feita e recebe palmas como prêmio.

No fundo, o que vem sendo dito há anos pelos políticos em todo o mundo, e por seus fiéis correligionários é o mesmo discurso existente na humanidade há milênios: “Quem está comigo, contra o inimigo?”

Por isso esse endeuzamento de algumas figuras políticas, pouco importando sua real trajetória.  Lembremo-nos que trajetória é a sequência de atos que alguém toma durante sua vida.  Política, social, pessoal.

Ninguém acerta tudo, claro.  Ninguém sabe tudo.

Exatamente por isso acho cada vez mais que os macacos repetidores de frases feitas deviam procurar fazer um exercício básico antes de repetirem o que eles nem sabem se é fato ou factoide.  Devem pensar, antes de me chamarem de direitistas, qual a propriedade que detém para tanto, se, a meu ponto de vista, são eles mesmos, esquerdistas?

Por que um esquerdista pode falar o que quer, e não um direitista?  Se eu fosse um direitista, por que eu deveria sentir vergonha disto?

“Você é um direitista!” soa a mim, como uma acusação de um ilícito ou mesmo de um crime.

O perigo está, como muito bem notado por um deputado federal da bancada religiosa disse em uma entrevista a um renomado entrevistador da atualidade, em transformar em crime emitir-se uma opinião pessoal.

Historicamente, criminalizar opiniões individuais é ferramental de extrema direita.  Fascista.  E quem, da esquerda usa de tal ferramenta é o que, então?  Não seria este um direitista?

Escolher um caminho exclusivo, é ruim tanto no aspecto político, como no social, como no pessoal.

Melhor seria se as pessoas pudessem produzir conclusões originais e fundamentadas no bom senso, mas como disse outro amigo meu, “bom senso não se coloca no papel”.  Como disse um outro amigo, “quando apontamos um dedo para alguém, temos três apontados para nós mesmos.”

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